domingo, 11 de dezembro de 2011

Então é natal...


Chegamos ao tão aguardado e festejado natal, que maravilha! Tempo de fartura na mesa, de família reunida, de troca de presentes, união incondicional...que coisa bacana!
Para a maioria, tempo em que as pessoas se endividam para comer o que normalmente não poderiam, em que famílias que mal se suportam durante 364 dias do ano, experimentam uma “noite mágica” de um amor instantâneo em 3 minutos “sabor galinha caipira”, noite feliz a qual, ainda no mês de março, o cartão de crédito nos recorda o quão generosos fomos...ah o natal...data tão especial!
No mês de dezembro vestimos uma roupagem de “papais noéis” e tentamos fazer tudo diferente do que fizemos nos outros dias do ano: sensíveis ao sentimento do próximo, altruístas com os que normalmente ignoramos, generosos com os menos abastados.
O natal motiva esse sentimento, afinal, se “nos comportamos mal” durante todo o ano, será através da remissão de nosso erros que encontraremos um ano novo próspero, de esperança e livre de culpa.
Claro que não faço apologia do ódio ao natal, acredito que para muitos, seja de fato uma data preenchida de muito amor e união - afinal, essa é a idéia. Faço sim apologia ao mito do natal onde tudo é hipocritamente belo e perfeito.
Até aonde a memória pode me levar, meus natais sempre foram tristes. Para uma criança filha de pais separados em uma década onde isso não era tão comum, a idéia de família reunida era, de longe, das mais atraentes. Lembro dos natais com minha mãe quando aguardava ansiosa pela visita do papai noel da janela da sala, imaginava seu trenó voando perto do Pão de Açúcar e dormia sempre frustrada porque queria que aquela figura, única referência masculina da minha noite, estivesse presente.
Hoje, crescida, me deparo com o mesmo sentimento daquela menina da janela. Melancolia. Sempre questionei o por quê disso, e obviamente sei que parte deste sentimento advém das experiências de minha infância. Incrível como a raiz de todos os nossos males começa na nossa infância.
Devia ter uns 5 ou 6 anos quando certa vez participei de uma festa natalina a qual era protocolo do meu pai (que não era rico) estar presente. Nesta festa, crianças riquíssimas ganhavam presentes a perder de vista. Já pequena, percebia como aquelas crianças ricas não davam o menor valor aos presentes que recebiam do “papai noel assalariado”. O esquema era seguinte: Papai Noel sacava de seus inúmeros sacos um embrulho e gritava o nome da felizarda criança, que corria em clima de euforia para resgatá-lo. Lembro de todas as sensações experimentadas naquele dia: da esperança por uma hora ter meu nome chamado, da ansiedade pela possibilidade de ser a próxima criança a  ser chamada, e da frustração quando via que não seria mais chamada. Depois vinha sempre o choro inocente, o consolo de meu pai e, momentos depois, um sentimento de força e superação absurdos que me faziam acreditar que eu era a melhor criança dali, justamente porque era “a diferente”.
Durante alguns anos, fui submetida a festas semelhantes e em uma delas, alguma “boa alma” sensibilizada providenciou para a criança “avulsa” um presentinho que fizesse papai noel gritar meu nome. Lembro de como me senti quando saí correndo ao encontro do Papai Noel objetivando destrinchar meu embrulho, porém, como se tratava de natal - data que nunca combinou comigo -, deparei-me com uma "caneta bic verde limão emborrachada", fantasiada como se algum ser extra terreno fosse.
Hoje essa história me é engraçada, mas aquela caneta foi a primeira e mais marcante referência de humilhação que passei na vida. Há humilhações que nós, adultos, na melhor das boas intenções, não fazemos ideia provocar em nossas crianças. Creio que o adulto bondoso quis tão somente me fazer sentir parte da brincadeira, mas para mim, tão ruim quanto não ser chamada, era ser lembrada de que eu era a única criança diferente, e que o diferente não poderia brincar. Assim, segui com o sentimento de “diferença” pela vida e, aos poucos, este sentimento de varejo, abriu espaço a uma percepção de especialidade onde o diferente não é negativo e sim autêntico, único, basta que o transformemos em algo positivo. A escolha sempre é nossa.
Estranhamente nos natais lembro daquela criança triste e, por 24 horas, sinto ela reviver em mim a cada ano. Aquela menina diferente traz consigo um sentimento de superação e força que me enche o peito. Sempre que sentamos para papear, ela e eu, nos dias 24 de dezembro, reforço-lhe o quanto sou orgulhosa pela atitude ativa que ela sempre se posicionou perante a vida e agradeço o quanto tal atitude refletiu na mulher que ela se transformou. Quando conversamos, ela responde que desde cedo percebera que a diferença dela para as outras crianças é que ela sempre soube que viveria uma série de “festas natalinas”, expectativas frustradas, humilhações, momentos de tristeza provocados por terceiros, mas que apesar da dor, a única atitude realmente construtiva que poderia ter, e que poderia levar-lhe a voos realmente altos, era a de superação. SEMPRE.
Espera, escutei meu nome! É a vida com embrulhos nas mãos me oferecendo presentes, preciso correr, oba! Feliz Natal!


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Ideais

Ao folhear uma revista feminina, deparo-me com a seguinte matéria: "chegue ao seu peso ideal", mais adiante: "o biquini ideal para o seu tipo de corpo"...notei que o modelo que mais me agradava era veementemente "proibido", ou pior: não se tratava do modelo "ideal" para uma mulher como eu. Droga, então esquece.

Parei para refletir o quanto pautamos nossas vidas e atrelamos felicidade a conceitos cada vez mais estapafúrdios de ideais. Idealismo sem ideologia escraviza. Somos guiados ao que devemos acreditar nos trazer a felicidade plena, o conforto da alma mas, o que de fato ocorre, é que vivemos pela busca angustiante de uma perfeição idealista que não existe, uma busca que nos impede de viver plenamente nossos verdadeiros "quereres". Poucos são os que têm escolha, a maioria pensa ter.

A sociedade nos cria modelos de ideais, nos vende a idéia de que, para parecermos bacanas, do time dos que "deram certo", devemos ser esbeltos (ou melhor, devemos ser magérrimos), financeiramente saudáveis (ou melhor,devemos ser ricos), simpáticos (simpatia tão somente não conta, devemos ser equilibrados), ter amigos (ou melhor, amigos sim, mas que estes sejam bem relacionados), um parceiro (de preferência um príncipe encantado, com todas as atribuições acima).

Milhares de ideais são despejados a todo o tempo às mentes anestesiadas, ideais que definem o carro que devemos ter, o peso o qual chegar, a comida que não se pode perder, o sonho que se deve construir...tudo fruto do capitalismo desenfreado ou da falta da natureza humana? É a casca valendo mais que o miolo, o status vencendo ao medicamento antidepressivo.

Achei que deveria eliminar 4 quilos....droga, segundo a revista são 10.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O melhor minuto

Adotei um gatinho, sim, um gatinho: quatro patas, focinho, preto e branco, desse tipo. Meu gatinho vem visitar-me no carro quando saio do trabalho, sempre em busca da nova ração sabor salmão que ofereço com o coração aquecido.

Meu gatinho come, agradece com um carinho e volta feliz pro buraquinho de onde saiu. Nos fazemos felizes naquele breve momento do dia, uma troca justa, amorosa, deliciosa e, sobretudo, livre.

Meu gatinho e eu não temos convencionalismos: quando ele não está afim, não aparece, quando estou apressada, ele observa de longe como quem diz: "saquei, hoje não vai rolar refeição, apareço quando tiver fome novamente". Nos damos bem assim, sem a obrigação, nos vemos porque nos fazemos felizes no tempo em que estamos juntos e, por conta disso, queremos estar juntos quase que diariamente.

Sempre admirei a liberdade plena dos gatos...quando adolescente, a questão da liberdade povoava demasiadamente minhas idéias, imaginava como seria maravilhosa a liberdade dos 30, mas agora,  me pego sonhando com a liberdade inocente e simples da adolescência onde parte somos sonhos, parte ilusões.

Afinal, qual o conceito de liberdade? Dinheiro? Alforria de nossas idéias? Ausência de censura? É gritar pelado pela rua?

Liberdade é estado particular de espírito, união entre idéias e atitudes, respeito pela natureza de cada um, coerência a dois, a três, ao ser enquanto único e unitário.

Defendo a teoria de que boa parcela dos relacionamentos - sejam amorosos, amizades ou até mesmo uma parceria profissional - terminam, porque ao passo que duas ou mais pessoas resolvem se unir, misteriosamente esquecem-se de sua condição enquanto ser humano individual, transformando-se em uma massa única de idéias, obrigações, ações.....e dá-lhe peso.

Somos seres humanos particulares, contraditórios, insaciáveis e, por mais que respeitemos a criação dos pares, buscamos a árdua tarefa do conhecimento individual, daquela liberdade que nos pertence e que é peculiar, tal como uma impressão digital.

Sem liberdade não há amor verdadeiro, amor verdadeiro é respeito máximo pela condição de ser humano.

Nada pior do que dividir a vida com um parceiro que o trata como que adquirido uma indulgência, como se o par tivesse o poder de perdoar todos os seus pecados, ou abrisse as portas para o paraíso, ou ainda, como se união fosse sinônimo de posse, de obrigações.

As obrigações jamais compartilham, o amor sim.

Somos complemento mas, sem querer, permitimos ser esbulhados de nossas vontades. Esquecemos  que não completamos o outro, apenas servimos de acessório para harmonizar o visual dos que amamos, somos a salvação de nossas mentes, a própria liberdade.

Hoje meu gatinho não apareceu...fiquei com saudades mas respeito, afinal, mais vale o seu melhor minuto a 1000 horas de sua companhia efêmera.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Buscas...

Nunca consigo elaborar o tema do que escrevo antes de terminar o que tenho a dizer. Por incrível que pareça, o tema é sempre o alvo mais difícil de minha busca literária, é o cartão de visitas que irá determinar se a crônica será ou não interessante. É como apresentar-se em uma festa, adentrar à sala de uma reunião importante, apresentar-se em um show.

Vivemos por aí em busca de temas, de amores, de dores, de odores...vivemos uma constante busca...incrível constatar como somos compostos parte de procura e a outra também. Se está calor, procuramos o frio, se frio, o calor; se temos um amor, estamos insatisfeitos em busca de liberdade, se liberdade temos, nos falta um amor para dividir a vida...

Se temos dinheiro, queremos mais tempo, se mais tempo, queremos mais amigos...se temos a família, queremos a perfeição da margarina, se não a temos, queremos um cachorro...é a tal busca que nunca acaba.

Vivo me questionando se tais buscas servem para nos tirar da famosa "zona de conforto" ou se para nos angustiar...às vezes, acho que mais amedronta que motiva.

Um bom exemplo é o amor entre homem e mulher. Normalmente a tendência do amor é de um sentimento que se finda, seja porque uma das partes conheceu alguém a buscar novas descobertas, seja porque simplesmente o sentimento acabou.

Ideal seria que tal sentimento morresse ao mesmo tempo, como que um pacto, tal como na maioria das vezes ele começa, mas com o fim nunca é assim....o fim vem sempre sem avisar e nunca se apresenta com carinho e benevolência, é sempre dolorido, estorquido, exautivo. Nos cria como seres humanos amedrontados, abalados, escaldados...é o processo natural da perda.

Lidar com perdas, fére tanto o âmago de nossas almas que nos cria uma "capa natural e indestrutível", como o super homem que se transforma a cada perigo, colocamos nossa roupagem especial para lidar com o próximo amor.

Mas do que adianta defesa se o que queremos é a entrega?

Do que adianta esquivar-se da batalha se vestimos uma capa acreditando justamente que ela nos fará vencer?

Somos resistentes ao amor porque sabemos que, no fundo, impossível seria não nos entregarmos a ele.

O tema? Ainda estou buscando...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Equilibrando bolinhas

No sinal, um artista de rua pára em frente ao meu carro e aponta em minha direção. Pude ler em seus lábios algo parecido como "este (show) é especialmente pra você". Presto então atenção enquanto o artista lança orgulhoso suas três tão manjadas bolinhas ao ar.

Após uns 10 segundos de "show", o artista deixa uma de suas bolinhas cair no chão e aquela situação o deixa tão envergonhado e desanimado que só lhe coube resgatar a bolinha desobediente e sentar ao meio fio, olhar ao chão e em direção oposta à minha. Era nítida a sensação de fracasso que ele experimentava naquele momento. O sinal abriu e meu destino seguiu.

Aquele simples artista de rua, sem querer, me fez refletir sobre a forma como as pessoas lidam de diferentes maneiras com seus objetivos e frustrações cotidianas, até mesmo nas pequenas coisas.

Logo depois fui correr e especialmente naquele dia estava desanimada e meu desempenho absurdamente pior que o usual...queria saltar daquela esteira maldita e terminar meu treino correndo até a pizzaria mais próxima, afinal, desculpas esfarrapadas para fugir de nossos objetivos nunca nos falta. Quando meu dedo quase encerrava precocemente o treino, o tal artista, equilibrista frustrado, me vinha à cabeça. Aquela bobagem fez com que continuasse meu treino, e aumentasse o rendimento. Cada vez que eu pensava em desistir, uma bolinha caía em minha mente.

Sem perceber, fazemos isso o tempo todo. Desistimos de nossos "shows" pelo receio da frustração, ou porque é sempre mais fácil lidar com o anonimato, às críticas. Não realizar um "show", muitas vezes, é tão importante quanto desempenhá-lo com louvor, pois é através da frustração que nasce o desenvolvimento, e do sofrimento, o amadurecimento.

Em meu destino, segui na mão com a moeda de 1 real que havia separado para meu artista frustrado...ele não estava preparado para qualquer recompensa por seu trabalho, talvez lhe tenha faltado humildade e compaixão por sí mesmo, ou talvez apenas uma pitada de senso de humor para com seus erros.

Porque será que somos tão mais complacentes com o erro alheio, aos nossos?

Merecemos sempre uma moedinha de 1 real por nossos shows frustrados, afinal, pior que fracassar é deixar a vida passar sem ao menos se arriscar.

domingo, 9 de outubro de 2011

Enfim, sós!

Feliz por finalmente ter despendido tempo para a criação deste Blog. Para alguém - internéticamente falando - impaciente como eu, acreditem, isso é um grande feito, mas após incentivos de amigos resolvi me encorajar a essa nova empreitada, que espero seja de grande sucesso. (Grande sucesso leia-se: que preste positivamente a alguém).

A maior dificuldade encontrada foi a escolha do nome. Um bom nome para um blog deve, por sí só, passar a idéia do que o blogueiro tem (ou não) a agregar...então, baseando-se nisso, criei o "Vida sem protocolo", um blog que vai discutir o quanto perdemos, ganhamos, atrasamos, adiantamos, percebemos, sintetizamos e falsificamos nossos protocolos comportamentais, e até onde efetivamente isso nos leva...muitas vezes terei coisas bacanas a repartir, outras nem tanto, mas acho que por hora, o mais importante é que estamos "enfim, sós" e o melhor: sem protocolo algum!

Hasta la vista!